A construtora britânica Kier Group decidiu abraçar a inteligência artificial de vez — e o segredo para isso foi convencer os funcionários a testá-la como se fosse uma brincadeira. A empresa, que tem cerca de 11 mil funcionários e constrói desde escolas até usinas nucleares, criou competições internas chamadas "prompt-a-thons" (maratonas de comandos) para incentivar o uso do Copilot, o assistente de IA da Microsoft.

Nessas maratonas, times eram desafiados a responder perguntas primeiro sem ajuda da IA e depois usando o Copilot. Outra dinâmica pedia que os participantes pedissem ao assistente para analisar seus e-mails e documentos dos últimos seis meses e descobrir qual personagem de filme eles seriam. A brincadeira também revelava pontos fortes e cegos de cada um como líder. "O engajamento foi incrível", conta Louisa Finlay, diretora de operações da Kier. "As pessoas se sentiram confortáveis para fazer perguntas sem medo de parecerem bobas."
Hoje, cerca de 40% dos funcionários da Kier usam o Copilot no dia a dia — em programas como Outlook, Excel e PowerPoint. A ferramenta ajuda a priorizar e-mails, rascunhar descrições de vagas e até planejar viagens. A empresa também está desenvolvendo "agentes de IA" (programas que executam tarefas específicas de forma autônoma) para áreas como segurança. Um deles coleta dados de acidentes e analisa fotos de canteiros de obras e vídeos de drones, reduzindo a necessidade de trabalhadores subirem em andaimes ou áreas de risco.
Apesar do entusiasmo, a Kier faz questão de manter o controle humano sobre as decisões. A política interna se chama "Human at the Helm" (Humano no Comando, em tradução livre). "A IA apoia as pessoas, mas elas é que mandam", diz Finlay. A empresa também planeja usar a tecnologia para prever quando equipamentos como elevadores e bombas precisarão de manutenção, evitando paradas inesperadas.
Para quem não trabalha com tecnologia, a lição da Kier é simples: a IA não precisa ser um bicho de sete cabeças. A empresa aposta em treinamentos em pequenos grupos, onde as pessoas aprendem umas com as outras, em vez de webinars chatos. O resultado? Até um gerente de obra disléxico mandou um e-mail agradecendo: para ele, o Copilot foi "transformador". Como resume Finlay, "a maior habilidade hoje é a curiosidade e a disposição para tentar coisas novas".