•singularityhub.com•
0 visualizações
IA acelera busca por remédios contra câncer 'intratável'
Novos fármacos miram proteínas antes consideradas 'intratáveis', responsáveis por tumores agressivos. Um deles, o daraxonrasib, dobrou a sobrevida em câncer de pâncreas avançado, e a IA promete turbinar esse avanço.

Um novo tipo de medicamento está conseguindo atacar proteínas que por décadas foram consideradas 'intratáveis' pela medicina, responsáveis por impulsionar o crescimento descontrolado de vários tipos de câncer. O daraxonrasib, desenvolvido pela Revolution Medicines, mostrou em um ensaio clínico com 500 pacientes de câncer de pâncreas avançado que pode quase dobrar o tempo de sobrevida em comparação com a quimioterapia tradicional, com menos efeitos colaterais. Os pacientes tratados com o novo fármaco viveram, em média, 13,2 meses contra 6,6 meses do grupo de controle, além de relataram menos dor e melhor qualidade de vida.
O que torna esses alvos tão difíceis de atacar é a sua superfície lisa, que não oferece os 'pontos de apoio' que a maioria dos medicamentos precisa para se ligar às proteínas. A família RAS, por exemplo, foi a primeira oncogene descoberta, em 1982, e funciona como um interruptor molecular. Em condições normais, ele é desligado após ativar o crescimento celular. Mutações, porém, o deixam permanentemente ligado, gerando tumores. O primeiro inibidor de RAS só foi aprovado nos EUA em 2021, quase 40 anos depois, e atacava apenas uma variante — muitos pacientes desenvolviam resistência. O daraxonrasib inova ao desligar as três principais variantes da família RAS, ligando-se a uma molécula parceira, em vez de tentar agarrar a proteína diretamente.
A inteligência artificial entra nesse cenário como uma ferramenta crucial para acelerar a busca por remédios contra outros alvos 'intratáveis', como a proteína p53 (conhecida como 'guardiã do genoma') e a MYC, anormal em 70% dos cânceres. Um exemplo recente vem do Baylor College of Medicine, onde uma equipe usou IA para vasculhar quase 10 milhões de compostos em busca de substâncias que matassem células com p53 mutante. O filtro encontrou 83 candidatos, e um deles, chamado H3, suprimiu tumores em camundongos. A abordagem ainda é inicial, mas mostra como a IA pode reduzir o tempo de anos de pesquisa para meses ou semanas.
O sucesso do daraxonrasib prova que essas proteínas não são invulneráveis. Combinar esses novos inibidores com terapias existentes e com a capacidade da IA de analisar estruturas moleculares e prever interações pode tornar obsoleto o termo 'intratável'. Para cânceres sólidos agressivos, como o de pâncreas, que ainda resistem a terapias avançadas como o CAR-T cell, essa nova geração de medicamentos orais e mais acessíveis pode representar a próxima fronteira no tratamento oncológico.